terça-feira, 13 de outubro de 2009

Eu, DDA?

"Se houvesse outros modos de conseguir organizar-me, ou se pelo menos soubesse que meu funcionamento dispersivo era devido a uma condição orgânica e não a uma tendência à preguiça, como eu acreditava antes, talvez tudo pudesse ter sido diferente. Não sei. Mas isso não ajuda em nada agora. O que interessa é me levantar dos escombros. Tentar reconstruir minha vida... e, sabe, com esses escombros construirei a base. Eles estarão sempre lá para me lembrar de tudo o que perdi e de tudo o que aprendi também."(Mentes Inquietas)




Lembro-me da primeira vez que o déficit me foi salientado. “Neide acho que você tem um ligeiro desvio de atenção.” Foi o meu então chefe que me alertou para isso. “Uma amiga minha tem, ela procurou um neurologista, está se tratando. Tendo bons resultados.”

De repente, eu comecei a pesquisar mais a respeito do caso na internet, e no final do dia, já estava lendo Ana Beatriz B. Silva.

Nossa, mergulhei no livro dela, como raramente mergulhei em outro. Sim, eu vi minha infância correndo pelas letras. E no final do dia, eu só conseguia chorar. Era mistura de ansiedade e uma resolução explícita pra minha “preguiça crônica”. Uma revolução! Era um pouco de fé, e esperança de não ter que conviver com aquela dificuldade tamanha de manter qualquer linha de organização para o resto da vida.

Uma explicação pro “Mas você é tão inteligente, devia - estudar, ler, se concentrar – mais” que escutei a vida inteira.

Agora fazia todo um sentido. Minha ausência de auto-estima, minha luta angustiante pra conseguir fazer coisas simples. Minha constante sensação de fracassar, de ter feito menos do que eu podia. Eu não era vagabunda, ou indisciplinada, preguiçosa ou irresponsável. Eu era DDA!

Eu sempre tentei estudar mais, ser mais, fazer mais... Mas chegava a um ponto que tudo se embaraçava num grande novelo puxado por um gato.

Eu li quatro livros inteiros na vida. Apesar de adorá-los.

Eu aproveitei apenas 10% da minha faculdade por não conseguir me manter na sala de aula, (e olha que não saia pra ir pro barzinho, muitas vezes me sentava na escada, só não ficava sentada na carteira ouvindo o professor.)

Eu sempre fui impulsiva em tudo. Ansiosa e angustiada.

Eu planejava estudar, mas perdia horas com a mão sobre o rosto, olhando pro livro de matemática e pensando em qualquer bobagem simples, menos em matemática.

Eu sempre pensei muito, mas os pensamentos fugiam com a mesma velocidade em que meus pés batiam contra o chão, em gestos quase involuntários.

Eu realmente estava perdida diante do que me cobravam, por pensar que a culpa era só minha... O que mais me destruía era a cobrança de pessoas que achavam que tudo não passava de corpo mole.

A pressão que eu impunha sobre mim, me incomodava. Mais que isso, me esmigalhava. Eu era um lixo, por não conseguir o que todos conseguiam. Por que afinal, se todos faziam, e eu não, eu era mais burra, mais sem controle. Eu era irresponsável, eu era dispersiva. Eu nunca terminava o que começava. E a culpa era só minha...

Ler a Ana me mostrou que não, era fisiológico.

Mas claro, nem tudo é apenas fisiológico. Grande parte depende de mim. Logo, não é porque tenho uma forma de concentração diferente dos demais, que ficarei falando “sou DDA não faço isso!” ou “a culpa é o DDA”... Mas, pelo contrario, tendo consciência de quem eu sou, uma vez que não é uma doença, mas sim é a parte determinante da minha personalidade, eu posso exercitar-me pra manter mais próxima da “sanidade” que eu almejo. Eu não carregarei a cruz do fracasso, mas buscarei ajuda pra continuar exercendo quem eu quero ser, quem eu gosto de ser. Sabendo do problema, posso combatê-lo. E saber, que há muitas pessoas como eu, e que não é falha do meu caráter já ajuda muito.

Hoje eu sei que há diferença entre uma desatenção simples e um déficit, ou de um ato isolado e uma patologia. Pois, todos nós temos características comuns a doenças psiquiátricas, mas tristeza não é depressão, mau humor não é bipolaridade. O que torna algo patológico é a firmeza com que esses fatos determinam sua vida. De que formam interferem na sua relação com a sociedade. E eu sei, que a minha desatenção moldou grande parte de tudo que eu sou hoje. E não é um detalhe apenas, e por isso, hoje saber que não depende apenas de mim – entenda-se condição pela qual eu posso trabalhar, mas que se eu não “tratar” fica incontrolável, e longe do meu "poder" de "dominá-lo" - já é como respirar fundo. Tirar um peso das costas.

* DDA – Déficit de Atenção ou ainda TDA (Transtorno de Deficit de Atenção).



PS: Depois deste post uma amiga me enviou essa entrevista da Ana Beatriz Barbosa . Bem interessante!


2 comentários:

João Gabriel disse...

choray com tamanha semelhança à minha vida!
sair da sala pra ficar sentado viajando na escada é clássico!
mas às vezes eu penso se somos doentes mesmo, ou se a sociedade que deveria nos aceitar como somos.
tomar a tia RITA trará seus efeitos positivos, mas e o nosso eu? e aquela nossa personalidade desastrada e desatenta que mata nossos amigos de rir? pra onde ela vai?

Anônimo disse...

quem nunca teve dda nunca vai saber o que é realmente,ate receber o diagnostico.

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