Páginas

12/07/2011

E olha que isso saiu de um texto técnico...

"Como historiador, historiador de invenções, habitante desta terceira margem, sei que sou rio, pois sei que sou também natureza e grande parte do meu corpo é constituído por água. Mas também sorrio, pois a consciência irônica de meu tempo me faz praticar meu ofício como um lugar de desconstrução do rosto sério e sisudo das verdades definidas e estabelecidas. Sou rio, pois sei que meu saber é composto de muitos outros, sei que não sou a origem do meu saber, não sou o sujeito fundante da história que faço, sou fundado por uma sociedade, uma cultura, por formações discursivas, por práticas de poder e linguagem, sou um estuário em que vem desaguar muitos arquivos. Exerço um ofício conforme regras que não são apenas estabelecidas por mim, coerção de grupo, regras que se modificam com o tempo, mas sorrio porque sei que, apesar de tudo isso, eu participo ativamente das invenções que faço. Ao escrever história tenho atuado, agido, produzido fatos, eventos com repercussões sociais e culturais. Sou, as vezes, como um rio, mero objeto de fluxos, de processos, de relações que passam por mim, que têm em mim um ponto de apoio, mas as vezes sorrio porque posso burlar estes processos, estas determinações, estas estruturas, posso negá-las, e elas resistir, com elas me divertir e divergir, muitas vezes com um simples sorriso de ironia, Sou disciplina e antidisciplina, determinação e liberdade, estratégia e tática, astúcia e angústia. Às vezes sigo o (dis)curso, às vezes saio das margens, transbordo, alago, arrasto em meu caminho outras formas organizadas e as transformo em novas formas, e ambas compõem o meu existir de rio. Às vezes objetivado, às vezes sujeitado, às vezes objetivo, às vezes subjetivo, sempre os dois ao mesmo tempo, eu sou rio e eu sorrio, eu, natural e humano, cursivo e discursivo, invento na História e a História."

Durval Muniz de Albuquerque Júnior - A arte de inventar o passado.

01/06/2011

Ou isto ou aquilo?

" Margem da palavra, entre as escuras, duas margens da palavra
Clareira, luz madura..." (Milton Nascimento)




Percebo que muito se cobra das pessoas que sejam coerentes.  Como numa obsessiva busca de harmonia e equilíbrio requerer-se sempre uma compatibilidade entre atos e pensamentos. Entre falas e gestos.  Entre falas e falas. Critica-se o contraditório ou quem se opôs em atos a um discurso presente, até mesmo passado. Primeiro que somos mudança e a evanescência do presente nos transforma o pensamento a cada milésimo de segundo. Desta forma, mudar o discurso é algo totalmente aceitável. Todavia, não só podemos mudar como contrariar nosso entendimento “do agora” com uma ação oposta. Porque há de se lembrar que não existe homogeneidade. Tudo se esbarra, mas não se mistura, ficam sempre pontas opostas se espetando mutuamente. Todo contraditório pode caber numa só pessoa.
 Dizem que devemos tentar Ser em meio a um apanhado de Estados. Buscar um consenso entre as idéias opostas que abrigamos e transformar todos os “ingredientes” numa fina massa coerente. Onde se escolhe um curso, e se adapta o que é adequado a ele, e se exclui o que não é. Eu nunca consegui, por isso vivo da incerteza. Não sei. Não creio. Não afirmo (ou afirmo?). Trago comigo a bagunça e desproporção – vide meu quarto.   
  Confesso que já me cobrei isso um dia. E até mesmo comprei um discurso vendido na Nova Acrópole em feiras de filosofia: “Buscai a coerência”. Mas se tem algo que o tempo me ensinou é que não é possível conciliar o todo. Somos (ou estamos) um apanhado de contradições, discursos opostos que se casam numa mesma crença, ou várias crenças que digladiam na mesma pessoa. Não releia os meus posts antigos, não acredito mais neles. Ou se acredito, tenho grandes ressalvas e já agi em contrário. A minha oração não é eterna, não é o todo da minha vida. Sou incoerente, sou confusão, acima de tudo não sou. E o que me salva da angustia terrível do não ser, é saber que sempre poderei escolher ficar no meio do rio e não optar por uma margem. Andar numa margem, enquanto amo a outra. Ou amar as duas ao mesmo tempo, na mesma intensidade. 



*Sim, sou uma caloura empolgada com Metodologia. Grata!


PS: Leia esse texto do Guimarães Rosa 

11/05/2011

Isolar-se para entrar em si?




Tenho reparado que cada geração que passa parece mais desconcentrada. Acho que parte disso é pelo excesso de informação e rapidez que se tem por ai. Não eu que pretenda utilizar um discurso batido contra a evolução da comunicação ou me encher da arrogância, ditando um manual de um comportamento de “como o antiquado é correto”. Não que eu não utilize a internet – Deus salve Saaevedra Fajardo! – ou não adore ver um filme em 3D. Mas do que venho falar agora é da minha experiência recente de “independência” de alguns meios. É por puro empirismo, e sei apenas que funciona comigo.
Eu tenho Déficit de Atenção, contudo minha recente desintoxicação do mundo digital – leia-se viver numa casa sem internet e sem TV – tem me ajudado a ficar concentrada. Tenho lido bem mais, e conseguido me focar de forma inédita. E pensando sobre este aspecto é impossível não se lembrar do espanhol – Novamente, Deus salve a Espanha! – Ortega Y Gasset e sua teoria de ensimesmamento. Na qual ele diz que não é do homem a humanidade, o pensamento. Este é um esforço contínuo que não lhe é dado gratuitamente. O pensamento vem através do ato, exclusivo do humano, se ensimesmar. Ou seja, entrar dentro de si. Os animais irracionais, ao contrário são alterados, ou seja, vivem do Alter – outro, externo. Gasset diz ainda, que do ensimesmamento o homem constrói observações sobre o que lhe é externo, desta forma, é capaz de modificar o seu meio, com constituições feitas a partir da sua compreensão, e modo exclusivo de ver e entender algo. É isso que o torna diferente. Contudo, o excesso de entretenimento que se tem na dita transmodernidade nos torna cada vez mais alterados. Cada vez mais incapazes de ensimesmar-se, uma vez que “digerir” o externo, através da compreensão interna é um processo lento e trabalhoso, que requer esforço e apreensão de sentido. Desta forma, muito mais fácil é distrair o cérebro com algo imediato e prazeroso. Porém a demasia do “divertido-vazio” nos faz perder um pouco do que nos torna homens, a possibilidade de pensar.
Sei que na contemporaneidade é impossível se isolar; o mundo prega o excesso de informação, tão arraigado pelo moderno – mas o moderno deu certo? – e desta forma “precisamos” ter notícias, saber do mundo ao nosso redor. Nessa busca obsessiva quase sempre nos deparamos com o entretenimento, que nos desvia o foco. Então, a necessidade de agregar o que alter, muitas vezes evita que compreendamos de fato. Que passemos o externo pela apreensão interna.
Confesso a vocês que ando “mal” informada. Que quase não sei sobre a morte do Osama Bin Laden, e que não vi sobre os escândalos políticos do Estado de Goiás. Não acessei a última tendência do FaceBook, e não assisti o último vídeo engraçado do YouTube. É tudo uma questão de foco. É concentração naquilo que de fato interessa, ao menos a mim. Além do mais, concentração me algo muito precioso. Assim abrir mão de “banalidades” [i] é um preço justo a pagar por ela. Hoje me prendo ao que me dá muita satisfação[ii] ou o que me muda internamente. Às vezes com sorte tenho os dois juntos. Por que já assumi – com muita angustia – a minha condição de limitação. Sei que nunca aprenderei sobre tudo, em todos os tempos. Então o que me resta e transformar a estranheza do que me fascina em familiaridade; É ensimesmar-me sobre o que de fato me transforma, e/ou me agrada. E isso é pessoal, único e exclusivo. Mas por fim, isso não é uma crítica a informação/diversão, mas sim notas sobre minha perda pessoal em meio ao excesso disso tudo. E meus recentes ganhos ao me isolar parcialmente. Por que esse texto não é um relato a La Nietzsche – “Como me tornei sábio” – mas sim, uma forma de reafirmar um processo do que está me fazendo muito bem. Sem nenhuma pretensão além.


[i] Entenda como banalidade tudo que mesmo não atraindo meu interesse, antes fazia com que eu perdesse horas do meu tempo.
[ii] Twitter, Filmes, Blogs, Truco.

28/12/2010

Por que astrologia?


"Por ser a mais antiga e mais complexa forma de conhecimento acessível ao homem, a astrologia encerra em seu interior as chaves para a descoberta de tudo o que há para ser conhecido no universo. É claro que dificilmente se chega a alcançar tamanho grau de compreensão. Porém, em termos práticos, até mesmo uma pequena parcela desse conhecimento pode funcionar como instrumento potente para a solução de nossos problemas. A astrologia penetra em profundidade o íntimo da essência humana e remove as falsas camadas superficiais, trazendo à luz a qualidade do seu ser mal."

(SCHULMAN, Martin. Harmonia Celestial, 1980.)

...

" Surgida na antiga Mesopotâmia, a astrologia tem ajudado o homem a orientar as suas ações cotidianas e a se inserir num contexto maior que dê significado aos acontecimentos da vida. Antes usada como arte divinatória, no século XX, após contribuição de Carl Jung, ela deixa de ser uma disciplina de previsões, passando a se concentrar na atribuição de sentido às ações humanas."

(RIBEIRO, Renato Janine. Agir com Astrologia, Café Filosófico, 2007.)